MOEMA – SIGNIFICADO DA PALAVRA MOEMA

Este artigo foi por nós disponibilizado no site chamado Wikipédia que se diz “enciclopédia” e “livre”.  Porém, em razão de termos discordado da minissérie da Rede Globo que colocou Moema como cunhada do Caramuru, esse artigo foi impugnado e deletado daquele site, que, portanto, NÃO é enciclopédia e NÃO é livre.   

O uso da palavra Moema na toponímia (nome de uma cidade mineira e de um bairro paulista) e como nome próprio fixou-se na língua portuguesa do Brasil a partir do final do século XIX e começo do século XX. Também o retorno do uso das expressões em “tupi-guarani” coincide com a mesma época.
Apenas no período de 1888 a 1943, mais de duas centenas de cidades mineiras tiveram seus nomes arrancados e mudados para nomes “tupis-guaranis”. Neste sentido, só a Lei No. 843 de 07.09.1923, que mudou o nome de São Pedro do Doce para Moema, mudou o nome de quase uma centena de outras cidades.
No caso da atual Moema-MG, entenderam que o nome da nova vila, perpetuaria a lembrança da doce personagem de “O Caramuru”, mesmo porque, segundo os estudiosos, Moema significaria DOCE e SUAVE em língua indígena, tal como o antigo nome do lugar, qual a topografia de suaves colinas. A oficialização da decisão deu-se a 17 de setembro de 1923.
Também no caso do bairro paulistano, a informação constante de seus sites na Internet é a de que “A região de Moema não tinha esse nome até 1987”. Chamava-se Indianápolis.
 Admitiram, inclusive na página “Moema(distrito) de Wikipédia, que “a palavra "Moema" e significa, literalmente, "mentira", "falsidade" ou "calúnia".
Porém, insistiram no equívoco anterior de que, “no poema Caramuru, de Santa Rita Durão, a mesma palavra foi utilizada com o significado de "doçura" e que isso pode ser explicado pelo fato da palavra Moeemo significar "adoçar". Moema, assim, seria uma versão feminina da palavra, criada pelo poeta”.

A Personagem Moema Pertence ao Poema “O Caramuru”
    
Historicamente, não há comprovação da existência da Moema, personagem, portanto, criado pelo mineiro frei Santa Rita Durão em seu famoso Poema Épico.
Não há qualquer informação de que a Rede Globo tenha comprado o direito de vandalizar esta obra, como fez grosseiramente.
Aferindo em “CARAMURU: POEMA ÉPICO”, de Santa Rita Durão, publicado pelo MINSTÉRIO DA CULTURA - Fundação Biblioteca Nacional - Departamento Nacional do Livro” , constata-se que o personagem Moema é citado nominalmente por apenas quatro vezes no Poema (de 207 páginas), sendo:
a) pag. 109, quando o chefe tapuia, pai de Moema, a dá (entrega), em aliança, ao guerreiro vencedor, o Caramuru.
Portanto, a minissérie da Rede Globo, quando “instituiu” que Moema era “cunhada do Caramuru” vandalizou, com um plágio grosseiro, esse clássico de nossa literatura. Esta foi a denúncia que fez com que os toupeiras da Wikipédia tirassem do ar este nosso artigo.
b) pag. 117, quando Moema, gemendo de inveja da Paraguaçu, nada no encalço do navio que levava para a Europa o Caramuru e sua esposa, Paraguaçu, se agarra ao leme da embarcação e começa a vituperar desaforos contra o Caramuru.   
b) pag. 118, quando o poeta, falando do sacrifício de Moema e demais ninfas de Diogo Álvares que morreram no mar, informa que o Caramuru não se importou com a morte de Moema, “Sem que ou amante a chore, ou grato gema.”
As palavras doce, docemente e doçura foram usados por 34 vezes no Poema. Foram usadas até para se referir às bananas do Brasil, mas, em nenhuma das vezes para se referir – direta ou indireta – ao personagem Moema.
Portanto, a afirmação de que “no poema Caramuru, de Santa Rita Durão, a mesma palavra foi utilizada com o significado de "doçura” NÃO tem qualquer fidedignidade ou fundamento.
Da mesma forma, os dicionários de Tupi, Guarani ou tupi-guarani ou de Português, disponíveis em nossas bibliotecas NÃO confirmam a afirmação, também da Wikipédia, de que “que isso pode ser explicado pelo fato da palavra Moeemo significar "adoçar .
Na verdade, a confusão com “Doce e Suave” parece ter advindo de algumas publicações em jornais que confundiram Moema com Iracema, a “Virgem dos Lábios de Mel”, de José de Alencar. O escritor, deputado e escravocrata radical José de Alencar - contemporâneo e colega da faculdade do Largo de São Francisco de Diogo de Vasconcelos, João Dornas, e Joaquim Felício dos Santos, os monstros sagrados da historiografia mineira - escreveu seu romance, totalmente fictício, no final do século passado. Já a história-base do poema de Santa Rita Durão, a Lenda do Caramuru, teria ocorrido nas costas da Bahia em 1510, e foi escrita por volta de 1780. Portanto, só têm em comum o fato de terem sido instrumentos dos escravocratas para a propagação de uma falsa cultura tupiniquista.
Realmente, a palavra Moema significa e sempre significou apenas MENTIRA e seus derivados .

Contexto em que o “Caramuru” foi Publicado no Brasil
 
Vejamos o contexto em que ressurge no Brasil e o contexto em que Santa Rita Durão utilizou a palavra MOEMA em seu Poema.
A partir de 1870, vendo que a abolição da escravatura era irreversível, os escravocratas, conscientes ou inconscientemente, articularam uma reação em três frentes:
 1ª) O expurgo à polução morena, onde se destacou o voluntariado de pau-e-corda que mandou prender os pretos livres e forros, vestiu-lhes fardas e os mandou para morrer na Guerra do Paraguai. Vendo que a soldadesca brasileira era quase 100% de pretos (negros, cabras, pardos e cafuzos) os argentinos passaram a chamá-los, como até hoje se referem aos brasileiros: “macaquitos”.
2º) O imigrantismo exacerbado, onde tudo valeu para atrair imigrantes brancos para o Brasil, com a finalidade de “purificar” o sangue brasileiro que, ao ver dos escravocratas, estava contaminado com o sangue de negros e índios.
3º) O tupiniquismo, onde a ordem foi cessar todas as musas e cantar apenas a “brava raça tupi”, excluindo-se, no entanto, os bugres, tapuias, botocudos e outros índios, que continuaram a ser considerados como feras, que deviam ser destruídas. Não queriam propagar a cultura indígena, mas, soterrar a nossa real cultura negra bantu.  Esses “tupis” e “guaranis” dos poemas e dos romances do final do século XIX e começo do XX, como é público e notório, na verdade, nem índios eram: eram apenas “portugueses pelados se fingindo de índios”. 
Foi neste contexto que os escravocratas descobriram e trouxeram em novas publicações os poemas “O Uruguai” de Basílio da Gama e “O Caramuru” de Santa Rita Durão .      
Realmente, a partir daí, os intelectuais de todo o Brasil esqueceram-se do latim e passaram a ostentar uma suposta erudição tupiniquista, através de incursões e digressões filológicas calcadas em um tupi-guarani muito mal informado, visto que só no século XX é que os escritos do Padre José de Anchieta (Gramática e Dicionário) vieram a ser mais conhecidos no Brasil

O Que Relata o Poema “O Caramuru” – O Que é Moema?

Em síntese, o que se lê no poema O Caramuru é que o navio em que vinha Diogo Álvares naufragou nas costas da Bahia por volta do ano de 1510, tendo sido toda a tripulação capturada pelos índios que passaram a devorar um por um os amigos de Diogo Álvares que foi sendo deixado de lado por estar doente.   
Um dia pegou sua arma, deu um tiro e recebeu o nome de Caramuru. A partir daí, ajudou o chefe da tribo a fazer guerra e vencer uma tribo inimiga. Casou-se com uma índia chamada Paraguaçu e com ela voltou para a Europa, onde contou sua história e recebeu honras e favores dos reis da Espanha e de Portugal.
Santa Rita Durão, atualizado sobre o pensamento enciclopédico-iluminista e sobre as discussões antropológicas acerca do “bom selvagem”, que polarizaram esta época do século XVIII, e ante a decisão pombalina de proibir a escravização dos índios e de reconhecer-lhes o direito à cidadania e vassalagem em 1755, quis agradar a corte portuguesa. Apropriou-se das formas e da estrutura de Os Lusíadas e escreveu o poema Caramuru, publicado pela primeira vez em 1781.    
Diogo Álvares, no seu poema, dada a ausência de um padre, aceitou se casar apenas espiritualmente com Paraguaçu, a quem passou a dedicar um amor e fidelidade castos. Como guerreiro da tribo, passou a ajudar nas batalhas onde foram vencidas dezenas de outras tribos inimigas. A cada batalha, os vencidos ofereciam donzelas em aliança aos guerreiros mais bravos. Diogo Álvares, marido casto e fiel de Paraguaçu, nunca desrespeitou essas donzelas e, como um pai ou diretor espiritual, mantinha-as guardadas e puras numa espécie de monastério. Entre essas donzelas, recebeu a Moema que só “aparece” depois ao final da 3ª parte do Poema.
Finalmente, apareceu um navio para resgatar o náufrago Diogo Álvares. Quando Diogo Álvares embarcou com sua esposa Paraguaçu, segundo o Poema, todas as donzelas do “convento de índias” foram libertadas. Saíram nadando atrás do navio, onde algumas morreram nadando e outras voltaram. É aí que entra a MOEMA. Era, ela, entre as “monjas-donzelas” de Diogo Álvares, talvez a mais bela ou a que mais perturbasse o espírito do homem-casado-fiel-à-esposa. Nadou desesperadamente atrás do navio; alcançou-o e, agarrada no leme, vomitou todo seu despeito e raiva da “Vil-Paraguaçu”, a escolhida do Diogo Álvares. Depois, passou a vituperar e xingar o Diogo Álvares, por ter ele escolhido a “Vil-Paraguaçu” e não a ela, Moema, por esposa. O casto e fiel marido Diogo Álvares manteve-se impassível dentro do navio e fingiu que nem ouvia o que dizia a pecadora Moema. Assim, a amásia malsucedida deixou-se cair no mar e morreu afogada. É o que é possível interpretar.
A publicação de 1781 agradou muito os europeus. O que talvez o autor não esperasse foi que, de seus personagens, o que se tornou mais famoso na Europa NÃO foi nenhum dos protagonistas Caramuru e Paraguaçu. Não.  Foi a Moema, um personagem secundário que criara única e exclusivamente para ajudar a ressaltar as virtudes de um marido fiel e casto, no caso, Diogo Álvares, o Caramuru.
Várias reedições ocorreram na Europa. Ao final do século passado, dentro do projeto reacionário dos escravocratas, a obra foi também publicada no Brasil. A esta altura, a figura de Moema já era muito falada por aqui.
Percebe-se que, no Poema, os nomes “tupis” dos personagens de Santa Rita Durão traduzem suas próprias personalidades. Explica-se:   Quando escreveu o Caramuru, havia muito vivia em ora em Portugal, ora na Espanha e na França.  Teria, pois, buscado inspiração no seu passado brasileiro. Nascido em 1722 no Arraial de Nossa Senhora do Nazaré do Inficcionado, hoje Santa Rita Durão, distrito do município de Mariana/MG, fez seus cursos secundários no colégio dos Jesuítas no Rio de Janeiro e foi para Portugal, onde, em 1737, passou pela Ordem  dos Eremitas de Santo Agostinho, formou-se padre. Depois, seguiu tumultuada carreira de padre-político da corte portuguesa.
Santa Rita Durão utiliza-se, em seu Poema, de fatos e nomes como Ouro-Podre, Inficcionado, Emboabas, que nada têm a ver com a época da narrativa (1510), mas sim com a sua infância em Minas Gerais.
Constata-se, ainda, que alguns dos nomes indígenas que menciona no Poema são encontrados no “Artes de Gramática da Língua mais usada  na  Costa  do  Brasil”,  também de Anchieta, livro no qual Santa Rita Durão, provavelmente, estudou quando de sua estada no Colégio dos Jesuítas do Rio de Janeiro. A evidência é que, talvez, fazendo exercícios de fixação no aprendizado da gramática da língua geral (a língua dos paulistas), Santa Rita Durão possa ter aprendido que a palavra MOEMA quer dizer MENTIRA.
O autor era um padre. A Igreja Católica sempre prestigiou a castidade e inquinou de pecaminosa a falta de castidade, o adultério. Valorizar a castidade e a fidelidade era, pois, muito importante.
Assim, é de se interpretar que o personagem MOEMA foi criado apenas para ser a outra. Para ser a mulher sem pudor, tentação que põe à prova a castidade do homem. A fidelidade do homem casado. Por isto, a evidência é a de que o autor frei Santa Rita Durão deu, como nome, a esse personagem, a sua própria persona em tupi, ou seja MOEMA, ou seja, a mentira; a falsidade.
Portanto, esta é a nossa tese sobre a utilização, pelo Frei Santa Rita Durão, do nome MOEMA, para esse personagem do poema “O Caramuru”. Quanto ao verdadeiro significado dessa palavra tupi, não há como refutar os dois autores que a deram como sinônima de mentira e falsidade, mormente, quando um deles é o Padre José de Anchieta.
Tarcísio José Martins


In http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bn000099.pdf

Afira-se em: 1) Artes de Gramática da Língua Mais Usada no Brasil”, feita pelo Pe. José de Anchieta, edição fac-similar, Edições Loyola, 1990; 2) Dicionário de Guarani-Português, de Luiz Caldas Tibiriçá, Traço Editora, 1989; 3) Método Moderno de Tupi Antigo, de Eduardo de Almeida Navarro, Editora Vozes, 1998; 4) Textos de “Minhas Cartas – Por José de Anchieta”, Edição comemorativa dos 450 anos de São Paulo/SP.

In Artes de Gramática, pgs. 49 e 164. Idem, Idem, em Método Moderno de Tupi Antigo – A língua do Brasil dos primeiros séculos, Editora Vozes, 1998, Eduardo de Almeida Navarro, pg. 610.

In Quilombo do Campo Grande – A História de Minas Roubado do Povo, editora Gazeta Maçônica, 1995, pgs. 291/293.

 

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